O Presidente cessante do Movimento UNITA manifesta o desígnio de instituir um Fundo (sic), cujo escopo seria o de aplicar, mensalmente, a quantia de 7.500 kwanzas por cada beneficiário, na esperança de que tal expediente venha, em derradeiro mandato, franquear-lhe as portas do Palácio da Cidade Alta, conduzindo-o à Presidência da República.
Sem embargo, cumpre dizer, em tom grave e sem rebuços, que semelhante proposição, num país já vergado sob o peso de desmedida dívida pública, não passa de uma quimera política, urdida antes para recobrar o eleitorado que, ao que tudo indica, lhe terá escapado das mãos para os arraiais dos jovens liberais, do que para oferecer ao povo uma solução verdadeiramente exequível.
Observo, outrossim, com particular desvelo, que os militantes de índole miliciana do seu Partido, avessos ao debate e refractários ao confronto das ideias, se lançam contra todo aquele que ouse, pela força do argumento e pelo exercício da razão, contestar a ineficácia de um programa que parece nascer fadado ao malogro, à semelhança do seu congénere, de nome «Kuenda».
Dir-lhes-ia, pois, aos militantes e às milícias digitais do referido Partido, bem como ao seu mui distinto «Depurtado» e, ainda, ao pseudo-receptor de ajudas que ousou gravar um vídeo dirigido a Sua Excelência, o Presidente Luís de Castro, o seguinte:
A democracia não é o império de uma só voz, tampouco o reinado absoluto de uma única verdade partidária. É, antes, a coexistência de opiniões diversas, o livre exame das propostas e a discussão franca, sem temor do embate intelectual, por mais áspero que este se afigure. Obrar contra tal princípio é enclausurar-se numa redoma de conveniências, onde somente encontram guarida os que anuem, os que aplaudem e os que, por temor ou interesse, se abstêm de contradizer.
Não espereis, pois, que o Partido Liberal se preste à arte de enganar o povo, ludibriar a juventude ou revestir de promessas douradas aquilo que, no fundo, poderá não passar de uma esmola eleitoral de 7.500 kwanzas.
Não confundamos, por conseguinte, a distribuição de uma pequena quantia pecuniária com a edificação de uma verdadeira política de emancipação económica. A proposta de destinar 10% das receitas anuais provenientes do petróleo à sua repartição por uma parcela da população angolana situada entre os 18 e os 35 anos precisamente aquela que se encontra em plena idade eleitoral exige escrutínio rigoroso, clareza quanto à sua execução e demonstração inequívoca da sua sustentabilidade financeira.
A mocidade angolana, todavia, já se mostra cansada de cinquenta anos de promessas abstractas, de programas vazios e de soluções falíveis, amiúde anunciadas com pompa e circunstância, mas raramente convertidas na prosperidade que lhe foi prometida.
Não consintamos, pois, que a lógica de um derradeiro mandato, quando dominada pelo desespero de alcançar o poder, arraste os seus proponentes ao delírio eleitoral, fazendo-os tomar por viável aquilo que ainda carece de prova, fundamento e responsabilidade pública.
Toda a proposta que, sob o véu da benevolência, se destine a iludir o povo deve ser peremptoriamente rechaçada por quantos verdadeiramente prezam a liberdade, a dignidade humana e a autonomia dos cidadãos. A liberdade económica constitui, a nosso ver, um dos caminhos fundamentais para a conquista da independência política, porquanto não há soberania plena onde os cidadãos permanecem eternamente dependentes da dádiva alheia, nem verdadeira emancipação onde a esperança popular se converte em instrumento de cálculo eleitoral.
O povo não carece de esmolas travestidas de políticas públicas; carece de oportunidades, de instituições dignas, de liberdade para empreender e de condições para prosperar pelo fruto do seu próprio labor.
E não será o desespero de quem se vê afastado do poder, nem a aflição de quem contempla o vazio à sua frente, que há de converter uma promessa eleitoral numa política pública séria, sustentável e digna de confiança.
A História não absolve os que prometem sem fundamento, nem consagra os que pretendem governar mediante a ilusão. Aos jovens angolanos cumpre oferecer mais do que migalhas: cumpre-lhes restituir a esperança, a liberdade e o direito de edificarem, por suas próprias mãos, o destino da Pátria.
Wander Oliveira
2026
