Em Angola, a produtividade governativa mede-se, cada vez mais, em inaugurações herdadas, fotografias bem enquadradas e elogios criteriosamente colocados a circular nos grupos certos de WhatsApp. É assim que um certo site de notícias — de proprietário desconhecido, linha editorial inexistente e imperativos legais convenientemente ignorados, sem que isso incomode ninguém — nos brinda com a revelação do ano: Manuel Homem e Mário Oliveira são, afinal, os ministros mais produtivos do Executivo. O nome de Mário Oliveira foi posto só para confundir. E, o mais caricato, um amigo de MH também sai na capa de outro jornal como figura do ano. Coincidência? A metodologia usada para tal conclusão permanece em segredo de Estado, mas não convém perder tempo com detalhes técnicos quando a narrativa já está pronta.
O Ministério do Interior, dizem-nos, lidera o ranking da produtividade. O critério é simples, eficaz e muito prático: inaugurou um edifício. Pouco importa que o projecto tenha sido concebido, planeado e executado durante a gestão de Eugénio Laborinho. Em Angola, como se sabe, a obra é de quem corta a fita, não de quem a pensou, financiou ou acompanhou durante anos. A memória institucional tem prazo curto, e a conveniência política, ainda mais.
O mais interessante nem é o título em si, mas a naturalidade com que ele é acolhido. O próprio ministro Manuel Homem partilha o “elogio noticioso” em grupos privados, com aquela modéstia estratégica que dispensa desmentidos. Não fui eu que disse, mas também não vejo razão para contrariar. Em democracias minimamente exigentes, talvez se esperasse uma nota pública a esclarecer que rankings informais não substituem avaliação séria de políticas públicas. Aqui, o silêncio funciona perfeitamente como selo de aprovação.
Entretanto, a propaganda corre mais depressa do que os factos. Executam-se cidadãos nas ruas, morre-se nas cadeias por negligência, multiplicam-se detenções arbitrárias, ninguém consegue tratar uma simples carta de condução ou obter um passaporte em tempo razoável, e o debate público é tratado como incómodo. O próprio ministro foge sistematicamente a entrevistas sérias, refugiando-se em lives onde acumula as funções de governante, jornalista e entrevistado. Nada disto entra no balanço da “produtividade do ano”. O edifício inaugurado brilha mais do que qualquer relatório incómodo. A governação transforma-se num álbum de fotografias bem editadas.
E surge a pergunta inevitável, aquela que ninguém quer ouvir, mas que insiste em aparecer: para quê forçar estes protagonismos artificiais? Para quê esta pressa em fabricar ministros do ano em sites duvidosos antes de existirem resultados do ano? Ambição política não é crime, mas substituir trabalho estrutural por marketing apressado é sempre um mau sinal. Sobretudo quando o marketing é tão ruidoso que começa a soar falso. Quem não se incomoda com um título falso não pode ser filho de boa gente.
Mesmo que pretenda ser Presidente da República — e consta que já pediu a uma certa pessoa para transmitir ao actual Presidente da República que está disponível para lhe suceder, com programa definido e tudo —, o mínimo exigível seriam resultados palpáveis, e não pimbas e bónus narrativos.
Confesso que tudo isto me trouxe à memória um episódio antigo, mas pedagógico: o dia em que alguém que nunca foi jornalista recebeu, com pompa e circunstância, o Prémio Maboque de Jornalismo. O mesmo país, a mesma lógica, o mesmo desprezo pelo mérito real. Aqui, prémios, títulos e rankings funcionam como brindes institucionais. Questionar é que passa por mau gosto, ressentimento ou inveja.
No fim, resta-nos admirar a coerência do sistema. Em Angola, quem inaugura heranças é produtivo, quem questiona é incómodo e quem ainda se espanta claramente não percebeu as regras do jogo.
Manuel Homem merece um prémio? Merece, sim:
O prémio de Ministro da Autopromoção do Ano.
CARLOS ALBERTO
