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    Início » AUMENTO SALARIAL NO SINSE E SIE: VALORIZAÇÃO PROFISSIONAL OU MECANISMO DE CONTROLE POLÍTICO
    Opiniões

    AUMENTO SALARIAL NO SINSE E SIE: VALORIZAÇÃO PROFISSIONAL OU MECANISMO DE CONTROLE POLÍTICO

    AdministradorBy AdministradorMaio 29, 2025Sem comentários4 Mins Read
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    As minhas reflexões sobre o aumento salarial no SINSE e SIE.

    O recente anúncio feito pelo Conselho de Ministros de Angola, sob orientação do Presidente João Lourenço, sobre o aumento dos salários dos funcionários do Serviço de Informação e Segurança do Estado (SINSE) e do Serviço de Inteligência Externa (SIE), gerou mais inquietações do que alívio público. A medida, que oficialmente visa “repor o poder de compra” e “valorizar a função estratégica” destes profissionais, parece, para muitos, mais uma manobra política disfarçada de política salarial, especialmente quando não se divulga o valor concreto do aumento um salário fantasma que atua mais como vínculo de lealdade do que como benefício administrativo.

     

    A VELHA PRÁTICA DO CONTROLE DISFARÇADO

     

    Com as eleições gerais previstas para 2027, torna-se difícil ignorar o timing estratégico deste reajuste. O que parece um simples ajuste salarial pode, na verdade, fazer parte de um processo maior de reforço da estrutura de vigilância do poder político. Como bem apontou o politólogo Herbert Kitschelt, regimes autoritários ou híbridos “frequentemente utilizam os serviços secretos como instrumentos de lealdade interna e repressão política”, e não como instituições neutras do Estado. Nesse sentido, aumentar os salários desses agentes pode ser uma tentativa de garantir que os serviços estejam prontos e alinhados para atuar em nome do partido dominante, não necessariamente da República.

     

    A ausência de transparência sobre os valores e critérios do reajuste só aprofunda a desconfiança. Não é apenas um aumento: é um sinal codificado de fidelidade, uma renovação silenciosa de contrato entre o partido e os seus braços de vigilância.

     

    QUANDO O ESTADO SERVE O PARTIDO

     

    Neste cenário, os serviços secretos deixam de ser protetores do Estado e tornam-se braços do MPLA. Isso reforça a crítica feita pelo historiador Christopher Andrew, especialista em serviços de inteligência, que alertava: “Quando o serviço secreto deixa de servir ao Estado e passa a servir a um partido, ele perde sua legitimidade e se transforma em instrumento de repressão.” Essa mutação institucional, ainda que silenciosa, tem consequências graves: o Estado perde neutralidade, a confiança pública é corroída e a democracia se torna frágil.

     

    Além disso, como apontava James C. Scott, autor de Dominação e Resistência, o poder mais eficaz é aquele que atua não apenas sobre o corpo, mas sobre a mente: “As formas mais efetivas de controle são aquelas que criam dependência psicológica e material.” O aumento salarial funciona então como uma amarra emocional quem recebe o benefício sabe que, para mantê-lo, deve seguir a linha, mesmo que isso signifique silenciar consciências.

     

    O CONTROLE PELO DINHEIRO, O CONTROLE PELO MEDO

     

    Esse tipo de manipulação não é novo. A jornalista e pesquisadora Naomi Klein, em seu estudo sobre manipulação social, defende que o verdadeiro domínio político se constrói criando realidades alternativas, onde “a submissão é naturalizada como escolha livre”. O agente passa a acreditar que serve ao país, quando na verdade serve a um projeto de continuidade partidária. Assim, o aumento salarial, embora não anunciado com números concretos, passa a ser interpretado como uma senha de alinhamento e uma blindagem psicológica contra qualquer impulso de dissidência.

     

    O problema é que, quando o segredo se torna estrutura de governo, o sigilo não é mais proteção é prisão.

     

    A QUEM SERVEM OS SEGREDOS?

     

    Num país em que as instituições deveriam estar ao serviço da Nação, a instrumentalização dos serviços secretos por um partido no poder compromete o princípio da separação entre Estado e força política. Quando as estruturas de inteligência são cooptadas por interesses de poder, como parece acontecer com o SINSE e o SIE, a democracia é minada por dentro.

     

    A medida, longe de representar uma verdadeira valorização profissional, pode estar enraizada numa lógica de dependência, silêncio e submissão, onde a lealdade não é mais à Constituição, mas ao partido que garante os privilégios. E como bem lembrava Kitschelt, isso não é sinal de força institucional é o sintoma de um Estado que passou a servir-se a si mesmo, ao invés de servir ao povo.

     

    Mais do que questionar o valor do aumento, é preciso interrogar quem controla os que controlam. Porque num regime onde até os segredos têm donos, a liberdade é a maior desaparecida.

     

    Henda Ya Xiyetu

    Criador de Opinião

    Opinion Maker

    Créateur d’Opinion

     

    “Sou um criador de opinião , sempre trazendo reflexões e perspectivas sobre temas importantes que impactam nossa sociedade. As opiniões expressas são pessoais e buscam provocar reflexão crítica e construtiva.”

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