Nas Conversas Essenciais de sábado passado, 01, Paulo Inglês encaixou a narrativa oficial de uma pretensa tentativa destruição de importantes estruturas públicas, com recurso a granadas enferrujadas ou parcialmente obsoletas, como constatou o Laboratório de Criminalística, naquilo que o teólogo e filósofo alemão Dietrich Bonhoeffer caracteriza como estupidez.
Em “Reflexões sobre a estupidez colectiva”, um ensaio incluído no livro Widerstand und Ergebung. Briefe und Aufzeichnungen aus der Haft(Resistência à Submissão: Cartas e Anotações no Cativeiro), Bonhoeffer diz que a estupidez não é “essencialmente um defeito intelectual, mas algo que atinge a humanidade do sujeito. Tanto é assim que existem pessoas de inteligência extraordinariamente ágil que são estúpidas e pessoas intelectualmente pesadas que podem ser tudo, menos estúpidas”.
Escritas a partir da prisão para onde Adolf Hitler o mandou em Abril de 1943, Bonhoeffer sustenta que a estupidez “é mais perigosa que a maldade. Contra o mal pode-se protestar; o mal pode ser exposto, revelado; também pode ser evitado, se necessário, até pela força; o mal sempre carrega o germe da autodecomposição, deixando pelo menos um desconforto naquele que o pratica. Mas, pelo contrário, não há como se defender da estupidez. Nada pode ser feito contra ela. Nem mesmo protestos ou violência subjugam a estupidez”.
Para Bonhoeffer, o indivíduo que corporiza a estupidez, o estúpido é, geralmente, alguém que se “sente completamente satisfeito consigo mesmo; sim, ele até se torna perigoso, enfurecendo-se facilmente quando é refutado”
Bonhoeffer adverte que a relação com um estúpido “exige muito mais cautela do que com a pessoa má. Nunca se há de convencer o estúpido pela razão – é inútil e perigoso. Para saber lidar com a estupidez, é preciso antes procurar entender sua natureza”.
“(…) O facto de o estúpido ser muitas vezes teimoso não significa que ele seja independente. Conversando com ele pode perceber-se ou sentir que o seu discurso nem sequer tem a ver com ele mesmo, com aquilo que o constitui. Trata-se de frases de efeito, slogans e chavões que se apoderaram dele. Ele está enfeitiçado, cego, abusado e maltratado na sua própria natureza. Tornando-se assim um instrumento sem vontade própria, o estúpido será capaz de todo o mal e, ao mesmo tempo, incapaz de reconhecer-se mau ou de reconhecer maldade nos seus actos”.
Sob o disfarce de Kuma, há um indivíduo que diariamente expõe alegremente a sua estupidez.
A receita é invariavelmente a mesma: apelo à imediata detenção dos seus integrantes e consequente extinção do programa Conversas Essenciais; degola de toda a liderança da FPU e a alteração da Constituição de modo a atribuir ao “Senhor Presidente da República João Lourenço” mandatos infinitos.
Estúpido, Kuma não é necessariamente surdo e mudo. O que trás a público, com a devida autorização, são conversas a que tem acesso nos círculos que lhe pagam. São nesses círculos onde “já sopra na brisa da liberdade a fragrância de uma nova Constituição para conquistar mais alicerces da democracia”.
Para esse paraquedista caído nas graças presidenciais saído não se sabe onde, “não é por ingenuidade que todos os conspiradores estão preocupados com a possibilidade do Terceiro Mandato”, porque “eles sabem que João Lourenço seria reeleito facilmente”.
Segundo essa criatura, “João Lourenço tem cumprido uma agenda internacional intensa que exige esforço, sabedoria, tempo, e tem-se feito com êxito, os dividendos são sentidos e vistos a olho nu, e Angola ocupa hoje o lugar que nunca conseguiria no mapa do mundo, dando à cidadania uma valorização e dignidade nunca antes conseguida”.
O estúpido enfurece-se profundamente quando organizações insuspeitas como o Fundo das Nações Unidas para a Alimentação (FAO) dizem que Angola tem mais de 11 milhões de pessoas que não têm o que comer diariamente.
Estúpidos como Kuma são tomados pela tentação de irem a Nova Iorque atear fogo às instalações do UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), outra organização do sistema da ONU em que Angola está representada, porque diz que mais de 5 milhões de crianças angolanas estão fora do sistema de ensino.
Estúpidos como Kuma sentem-se agredidos quando são confrontados com provas de que no “paraíso” dirigido pelo “Senhor Presidente João Lourenço” a cólera, uma doença indissociável da falta de água potável e de saneamento básico, já atingiu patamares muito embaraçosos.
Indivíduos como Kuma e outros da sua estirpe dão total razão a Bonhoeffer quando afirma que não sendo uma questão genética, a estupidez se expande em tempos de crise ou sob regimes opressores, pois nessas situações as pessoas “deixam de pensar criticamente e passam a seguir ideias sem questionamento”. Diz, ainda, que a “propaganda de regimes autoritários cria uma mentalidade de rebanho, tornando as pessoas incapazes de reconhecer verdades óbvias”, como a fome, a nudez e as doenças que castigam severamente milhões de angolanos.
“Os estúpidos são mais perigosos que os bandidos e os malvados. Não há nada mais perigoso que um estúpido com poder”, resume, por sua vez, o historiador e economista italiano Carlo Cipolla.
À estupidez, de que dá provas diárias num portal seguramente sustentado por dinheiro público, Kuma associou a impostura.
No domingo, 2 de Fevereiro, fingiu pôr um pouco da cabeça fora do seu habit natural – o esgoto.
“Chamo-me Kuma Gomes, jornalista há 35 anos, nascido no Ukuma, Huambo (…) fui Comissário Político da UNITA, militar das FALA, companheiro do Chefe de Estado Maior General Valdemar Chindondo e do Chefe de Estado Maior Samuel Sachiambo. Dei instrução militar na base da UNITA na Cela (Wako Kungo), e comandei uma Companhia da UNITA em Porto Amboim, ligada ao Batalhão da Cela comandado pelo Capitão Jeremias Cussya, tendo como segundo Comandante o Tenente Muzuri. Tive então como adversários políticos do MPLA, António Sabalo, que reencontrei mais tarde na Sonangol, e Luís Gonzaga que foi Governador Provincial de Luanda. Nas FAPLA tive como adversário o Comandante Saúde”, apresentou-se.
Com esses elementos, pusemo-nos à estrada. Na União dos Jornalistas Angolanos, no Sindicato dos Jornalistas Angolanos e na Comissão de Carteira e Ética não há registo de nenhum jornalista com aquele nome.
Todos antigos jornalistas que serviram a UNITA na VORGAN estão integrados nos órgãos de comunicação social públicos ou privados. Estamos perante um caso de falsa qualidade.
Contactada, da direcção da UNITA recebemos o seguinte esclarecimento:
“Foram contactados todos os generais com origem no Ukuma e os que foram instrutores na Cela, na altura indicada, ou que estiveram em Porto Amboim. (…) Tanto os generais com origem no Ukuma de que se destaca a família Liahuca, como os instrutores ainda em vida que estiveram na Cela, no período indicado todos eles indicaram desconhecer essa personagem, de assinatura Kuma Gomes!
Importante também referir que nunca o citado Samuel Sachiambo foi Chefe do Estado Maior, também o citado Tenente Muzuri (felizmente em vida) afirma nunca dele ter ouvido falar. O articulista Kuma Gomes demonstra conhecer mal o período indicado, pois nessa altura não existiam Comissários políticos nas FALA!”
Luis Gonzaga, de quem Kuma Gomes diz ter sido adversário (?) já faleceu há muito. Não foi possível saber se ainda são vivos António Sabalo e o “Comandante Saúde”, ambos também citados como “adversários”.
No texto do dia 2, a soma da estupidez e da impostura fez um desafio: “Se um dia quiserem debater comigo sobre Angola, desde o séc. X ao séc.XXI, estou à vossa disposição, mesmo com os meus 72 anos”.
No programa Conversas Essenciais não há espaço para debates com estúpidos e impostores sem rosto. No programa não se fala com e nem para fantasmas.
Má sorte tem o Presidente da República. Tudo lhe cai ao colo.
“Os estúpidos são mais perigosos que os bandidos e os malvados. Não há nada mais perigoso que um estúpido com poder”.
Alguém cometeu a imprudência de colocar um portal à disposição de um estúpido e o resultado está à vista. Todos os dias, o estúpido regurgita no espaço público o que ouve em círculos de acesso muito restrito.
GRAÇA CAMPOS