O jornalista Coque Mukuta reafirmou publicamente que não vai recuar no processo de denúncia sobre um alegado roubo milionário na Rádio Nacional de Angola (RNA), um caso que já ultrapassou os limites institucionais da empresa pública e chegou ao mais alto nível do Estado. A carta-denúncia foi oficialmente entregue ao Presidente da República, João Lourenço, e igualmente remetida aos grupos parlamentares do MPLA e da UNITA, colocando o assunto no centro do debate político e institucional nacional.
REDACÇÃO PORTALTVNZINGA.COM
Segundo o jornalista, os factos descritos no dossiê carecem de esclarecimento urgente, através de uma sindicância administrativa independente ou de uma auditoria externa, tendo em conta a gravidade dos montantes envolvidos, a origem pública dos fundos e o impacto direto sobre um órgão estratégico da comunicação social do Estado.

Entre os pontos mais sensíveis da denúncia está o Projecto de Expansão e Modernização Técnica e Tecnológica da Rádio Nacional de Angola, adjudicado à empresa norte-americana GATESAIR, vencedora de concurso público internacional. De acordo com a documentação apresentada, 10% do valor global do projecto, correspondentes a 39.400.000,00 dólares norte-americanos, levantam sérias dúvidas quanto à sua execução, aplicação e justificação contabilística.

Outro dado alarmante, que a Rádio Casimiro, teve acesso refere-se a um arrombo financeiro avaliado em cerca de 400.000.000,00 kwanzas, relativo a fundos que teriam sido deixados pela anterior administração da RNA, liderada pelo então Presidente do Conselho de Administração, Marcos Lopes. Até ao momento, não há informação pública clara sobre o destino desses valores nem sobre eventuais responsabilidades administrativas ou criminais.

A denúncia ganha ainda maior peso ao mencionar um alegado desvio de 1.400.000.000,00 kwanzas, o equivalente a cerca de 70% dos 1.900.000.000,00 kwanzas disponibilizados pelo Executivo em 2022, na véspera das eleições gerais. Estes fundos destinavam-se ao apetrechamento técnico e tecnológico dos Estúdios Centrais e das Emissoras Provinciais da RNA, com o objetivo de garantir a cobertura eleitoral em todo o território nacional. No entanto, segundo o jornalista, grande parte do montante não se reflete nos equipamentos, infraestruturas ou melhorias anunciadas.
Soma-se a este quadro o alegado desvio adicional de 900.000.000,00 kwanzas, valor disponibilizado pelo Presidente da República em Dezembro de 2022, já após o processo eleitoral. Mais uma vez, não existem esclarecimentos públicos suficientes sobre a execução desses recursos nem relatórios financeiros que permitam aferir a sua correta utilização.
Para Coque Mukuta, o silêncio institucional perante números desta magnitude fragiliza a credibilidade da Rádio Nacional de Angola, compromete a confiança dos cidadãos e contraria os princípios de transparência e boa governação defendidos pelo próprio Executivo. O jornalista sublinha que a sua posição não é política, mas estritamente profissional e cívica, defendendo que apenas uma investigação independente poderá repor a verdade, apurar responsabilidades e salvaguardar o interesse público.
Enquanto se aguarda uma reação formal da Presidência da República, da Procuradoria-Geral da República e da actual administração da RNA, o caso promete marcar os próximos capítulos do debate sobre gestão de fundos públicos, combate à corrupção e liberdade de imprensa em Angola.
RÁDIO CASEMIRO
