Perdi a minha esposa por pura negligência médica no Hospital Materno Infantil do Camama Manuel Pedro Azancot de Menezes
Faço esta mensagem como demostração de descontentamento com o atendimento no Hospital Materno Infantil do Camama Manuel Pedro Azancot de Menezes.
Não há qualquer intenção de manchar aquela unidade hospitalar, mas escrevo com a finalidade de dar a conhecer a todos para que o mesmo não aconteça à outras pessoas.
Desde que a minha mulher engravidou as nossas consultas foram no Azancot, embora pessoas me avisassem para que não fôssemos para lá porque hospitais nos públicos em questão de atendimento é “zero”, mas fomos para minimizar os nossos custos, já que as clínicas cobram uma fortuna, e então fomos lá.
Fomos ao Azancot e, para a nossa surpresa, encontramos uma obstetra muito boa, muito educada e bastante prestativa. Deu-nos um atendimento de excelência e tornou-se numa mãe para nós.
Deu-nos abertura para telefonar a qualquer hora e, nalgumas vezes que a minha esposa passou mal, mesmo tarde da noite assim fizemos e tivemos sucesso.
Ela atendia as chamadas e passava orientações que eram eficientes.
Entretanto, na primeira semana de Janeiro, a minha mulher começou a sentir contrações. Prontamente falamos com a médica que orientou que fôssemos a consulta no dia 08 de Janeiro, com aproximadamente 33 semanas de gestação.
Ela a analisou, e detectou que o mioma (que já era sabido que ela tinha) estava inchado, ela estava pálida e havia perdido alguns quilos, e enquanto decorria a consulta as contratações aumentavam tal como algumas dores leves que eram dores que ela já sentia nalgumas vezes mesmo antes da gestação.
Então a médica recomendou internamento para salvaguardar a saúde dela e das bebês e, foi exactamente apartir daí que começou a nossa luta.
As dores dela das pernas oscilavam, iam e voltavam, tal como as contratações e a equipa ia fazendo o seu trabalho, muitas vezes não cumpria com o horário da mediação e haviam dias que os médicos não iam para lá, a não ser que que enviássemos uma mensagem à médica obstetra que falava com os seus colegas e iam para lá toda a equipe e os enfermeiros todos zangados porque achavam que andamos a queixar. Digo desta forma, muitas vezes eu estive lá presente e era a mim que a obstetra perguntava como estava a paciente e se algum médico já estivesse passado por lá no dia.
Assim as dores dela foram ficando intensas, até que no dia 27 de Janeiro recebi a informação de que a minha mulher iria para o bloco, pois já estava com as semanas necessárias para que as bebês pudessem nascer Saudáveis, e assim, por volta das 18 horas daquele dia ela deu à luz a duas lindas meninas. Naquele momento a agradeci bastante pela luta vencida.
No dia seguinte (28 de Janeiro), estive no hospital como acompanhante das 10h às 18h. Conversávamos, ríamos e comentávamos o facto das gêmeas não serem parecidas, mas ter uma parecida com ela e outra comigo.
Neste dia ela se queixava tanto das dores nas pernas, pois não conseguia levantar e tampouco caminhar sem a minha ajuda.
As enfermeiras de plantão passavam e davam a ela o mesmo tratamento que as outras, e sobre as dores ela somente dizia que precisava fazer um esforço para caminhar sem ajuda.
Mesmo ela dizendo que não conseguia, vinha uma médica e recomendou analgésicos (se bem me lembro). Neste dia esteve lá a Rádio Mais, queriam que eu concedesse desse uma entrevista, mas recusei porque sabia que se falasse não falaria bem da instituição e, enquanto ainda esposa e minhas filhas estavam lá, achamos que falar a verdade (que minha mulher estava a ter um acompanhamento indevido), não seria conveniente, mas a minha esposa concedeu entrevista, pois estava grata pelo nascimento das filhas.
Dia 29 estive lá, no mesmo horário, e minha esposa mostrava a mesma queixa. Ela acreditava que as dores podiam estar intensas devido a anestesia durante a cesariana. Neste dia ela estava com as pernas inflamadas e, para virar ou puxar as pernas, precisava da minha ajuda, pois as dores eram intensa, porém, ela estava lá, tentando conversar ao máximo comigo. Dizia também que sentia os batimentos do coração acelerados.
Houve um momento que pedi à enfermeira que falasse com um médico. A médica recomendou que falasse com a fisioterapeuta, ela avaliou a paciente e disse que só podia tratar dela depois das dores cessarem. Tempos depois teve uma outra médica que recomendou novamente analgésicos.
No dia 30 não estive no hospital às mesmas horas, pois minha mulher me havia dito que algumas coisas em casa nós não tínhamos e era necessário sair para comprar, mas esteve com a irmã que era uma das companhantes que cuidava dela durante este período.
Mantivemos contacto por telefone de modos a dar o ponto situação e informou-me que a minha esposa ainda ouviu ralhetes das enfermeiras antes de ministrarem a medicação.
Acredito que sensivelmente 12 horas e poucos minutos a minha cunhada ligou a perguntar se eu estava perto, e aí acelerei a corrida, cheguei ao hospital e, quando segurei o telemóvel havia uma mensagem da obstetra me pedindo calma e que a dizer que a minha mulher estava na UCI.
Fui até a sala onde estava a minha esposa e as minhas minhas filhas, a minha cunhada me informou que a minha mulher falou com a obstetra e que esta por sua vez passou algumas orientações às enfermeiras, e por conseguinte após a medição ela urinou bastante e sentiu vontade ir ao banheiro e enquanto a ajudava a caminhar até à porta do banheiro, a minha esposa desistiu. Disse que não conseguia caminhar. Sentava lentamente até se deitar ao chão, ao mesmo tempo deu gritos e apertava os dentes. Chamou-se a equipe de enfermagem que a colocou na cama e chamou o médico que informou de que precisava ir à UCI.
As 15h horas fui permitido entrar na UCI, onde vi a minha esposa ligada àqueles equipamentos de controle vital e auxílio respiratório. Ela estava desperta, me via, ouvia e mexia os dedos.
Ao Sair da UCI fui ter com o médico responsável para passar as informações:
— “A sua esposa teve uma intercorrência pós cesariana”.
— “O que é isso?”, perguntei.
— “É quando durante este processo o caso se agrava. Ela teve uma TEP, que é quando um pedaço do corpo vai até aos pulmões, este quadro acontece com algumas pessoas que passam por cesariana. A pressão dela chegou a baixar até aos 35 a 40. Em termos miúdos a sua esposa morreu por uns minutos, tivemos de reanima-la e ela voltou a consciência , mas essa TEP afectou os órgãos cardíacos e respiratórios, por isso colocamos este aparelho para ajudar a respirar. A nossa maior preocupação agora a conseguir faze-la urinar. Desde que ela chegou aqui não urinou e, acreditamos que o rim também foi comprometido. Dentro de alguns minutos se ela não urinar pretendemos fazer uma hemodiálise. Vamos acreditar em Deus e dizer ao Senhor que o estado de saúde da sua esposa é crítico.”
Como não sou nenhum analfabeto passei a noite a ler, a fim de tentar entender o que é a TEP.
Descobri que TEP pós-cesariana é a sigla para Tromboembolismo Pulmonar que acontece depois de uma cesariana.
É uma situação grave e urgente.
Funciona do seguinte modo: — após a cirurgia, pode formar-se um coágulo de sangue geralmente nas pernas ou na pélvis. Esse coágulo pode soltar-se, viajar pelo sangue e entupir uma artéria do pulmão. Quando isso acontece, o pulmão deixa de receber sangue suficiente para fazer a troca de oxigénio.
Por que pode acontecer depois da cesariana?
A cesariana é uma cirurgia, e cirurgias aumentam o risco de coágulos.
A gravidez já deixa o sangue mais “espesso”.
Ficar muito tempo deitada ou sem andar;
Infecções pós-parto;
Desidratação;
Falta de prevenção com anticoagulantes quando há risco…
Neste momento eu percebi que houve aí negligência médica. Como profissionais de saúde sabiam que ficar muito tempo deitada era um risco e eles sabiam que ela sentia muitas dores nas pernas durante o tempo que esteve internada lá e até ao dia que entrou para o bloco. Porquê que depois de sair de lá trataram-na como uma paciente comum, uma vez que ela não tinha condições físicas para se mover igual uma paciente saudável?
Eles sabiam que as penas doíam e isso a colocou muito tempo deitada, elas não sabiam que corria o risco de uma TEP?
Na manhã de sábado fui informado do passamento físico da minha mulher. O hospital colocou no atestado de óbito como causa da morte: choque obstrutivo.
Tudo bem. Se ela tivesse o devido acompanhamento após o parto, eu aceitaria a causa da morte sem qualquer contestação, mas digo, durante os dois dias que estive lá após a cesariana o hospital foi negligente com a saúde da minha esposa e eles sabem que falharam, mas nunca irão assumir isto publicamente, pois internamente eles se protegem e esta é razão pela qual torno pública a minha situação.
Por: Adilson Adriano Quiteque
