O especialista em Recursos Humanos, Kiaco Nsanda, questionou a ideia de que o jovem angolano não gosta de trabalhar, defendendo que a juventude necessita, sobretudo, de oportunidades formais, orientação adequada, condições justas e políticas de inclusão eficazes para integrar-se plenamente no mercado de trabalho.
Ao abordar a situação dabempregabilidade em Angola, Kiaco Nsanda apontou que uma das causas centrais é a falta de informação adequada, acessível e assertiva para a população, especialmente para os jovens que procuram o primeiro emprego.
Segundo o estudante, muitos jovens ficam fora do mercado não por falta de vagas, mas por diversos fatores estruturais e informativos que dificultam o acesso às oportunidades existentes.
Entre as possíveis soluções, Kiaco Nsanda propõe a criação de plataformas digitais unificadas que centralizem todas as vagas formais e informais, com possibilidade de instalação nos telemóveis, facilitando o acesso à informação. Defende igualmente a realização de campanhas de orientação profissional nas escolas, igrejas e centros comunitários, com envolvimento das administrações municipais e comissões de moradores.
O especialista sugere ainda uma maior colaboração entre o Governo e as empresas privadas para garantir acesso a oportunidades de formação gratuita ou bolsas, com ou sem custos para os formandos. Acrescenta a necessidade de criação de cursos online gratuitos sobre orientação profissional, abordando temas como preparação de currículo, participação em entrevistas de emprego, apresentação pessoal em entrevistas, envio correto de currículos, formato adequado do documento, descrição do assunto no e-mail, elaboração de carta de apresentação e apoio na criação de e-mail profissional.
Outra proposta passa pela criação e integração de um sistema de informação entre ministérios, centros de formação e empresas públicas e privadas, visando a maximização da comunicação. No domínio dos estágios, considera que todas as empresas com abertura para acolher estagiários deveriam beneficiar de mecanismos de redução no pagamento de impostos, como forma de incentivo.
Nsanda defende também a reestruturação e o alargamento de todos os centros de formação do MAPESS (Ministério da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social), ajustando as formações às necessidades do mercado, com maior enfoque na componente prática. Lamenta que cursos com maior impacto não estejam a ser lecionados pela instituição.
Ainda o especialista sustentou ainda que o Governo deve criar políticas que garantam subsídio para todos os formandos. Para ele, o MAPESS deve, com urgência, intensificar a divulgação, através da rádio, televisão e jornais, incluindo o Telejornal, de programas de microcrédito, feiras de empreendedorismo e formações existentes, com indicação clara das datas de início e formas de inscrição, além da publicação do catálogo das formações disponíveis.
Na sua análise, há uma grande diferença entre o que se ensina e o que o mercado precisa. “Jovens formam-se em áreas sem empregabilidade, o que leva à frustração e à sensação de incapacidade”, sublinha.
Entre os principais problemas identificados, Kiaco Nsanda destaca a exigência de cinco a dez anos de experiência por parte das empresas, realidade que limita o acesso dos jovens ao primeiro emprego. Com poucas oportunidades de estágio e prática, muitos optam pelos concursos públicos, que nem sempre exigem experiência prévia.
Contudo, observa que os concursos públicos em Angola são frequentemente marcados por atrasos, falta de comunicação e longos períodos de espera, situação que provoca impacto psicológico e aumento da frustração. A demora e a falta de clareza causam ansiedade, stress e desmotivação, afetando a saúde mental dos jovens.
Segundo relatos recolhidos, muitos sentem-se emocionalmente prejudicados devido à incerteza constante. Acrescenta que os concursos públicos oferecem poucas vagas e atraem milhares de candidatos, sendo frequentemente apontadas exigências excessivas, corrupção, nepotismo e critérios pouco claros que dificultam o acesso. A espera não garante vaga e a probabilidade de não seleção é elevada.
Para o estudante, depender exclusivamente do concurso público representa um risco significativo, pois o jovem acaba por perder tempo, energia, oportunidades, experiência, desenvolvimento de competências e motivação. O melhor caminho, defende, é não depender apenas dessa via, devendo procurar formação profissional, estágio, emprego no setor privado, empreendedorismo e cursos técnicos.
Kiaco Nsanda chama também a atenção para a situação de jovens que trabalham sem qualquer vínculo laboral em várias empresas no país. Sem contrato, o trabalhador não tem acesso à segurança social, proteção contra despedimento injusto, licença médica, férias remuneradas e indemnizações, ficando totalmente desprotegido.
Na informalidade, os salários costumam estar abaixo do salário mínimo nacional, são pagos com atraso, negociados de forma unilateral, sem tabela salarial e sem benefícios. Sem descrição formal de funções, muitos jovens realizam tarefas não combinadas, trabalham mais horas do que o permitido e correm riscos sem seguro laboral.
Acrescenta que empresas informais, geralmente, não oferecem promoção, formação, avaliação de desempenho nem plano de carreira. Sem contrato, o jovem pode ser despedido a qualquer momento.
Sobre a dependência da economia informal, observa que o Estado tem consciência de que milhões de famílias sobrevivem desse setor, pelo que uma fiscalização rígida pode aumentar o desemprego, causar agitação social e reduzir a renda de milhares de agregados familiares.
Por outro lado, destaca a falta de denúncia formal por parte dos jovens, que muitas vezes não reclamam por medo de perder o emprego, receio de retaliação e desconhecimento dos seus direitos laborais.
Para Kiaco Nsanda, a questão não se resume à falta de vontade de trabalhar por parte da juventude, mas sim à necessidade urgente de reformas estruturais, melhor articulação institucional e criação de condições dignas que permitam aos jovens contribuir de forma ativa e segura para o desenvolvimento do país.
