Naquela manhã ensolarada, a Província do Cuanza Norte se preparava para receber o Presidente da República. As ruas, que deveriam pulsar com a vida dos cidadãos, estavam fechadas, como se a liberdade tivesse sido trancafiada em algum lugar distante. A segurança estava nas mãos de militares da UGP, enquanto a polícia, desarmada e sem poder, observava o desfile da indiferença que se aproximava. Era um espetáculo cuidadosamente orquestrado, onde o povo era mero figurante.
Mas quem é eleito legitimamente e faz o melhor para o seu povo precisaria de tanta segurança terrestre e aérea? Para que tanto aparato militar? A liberdade de uns estava sendo quartada para que o Presidente pudesse desfilar em um cenário cuidadosamente montado. Inaugurar uma infraestrutura construída às custas do sofrimento alheio parecia mais um acto de ostentação do que um verdadeiro compromisso com o bem-estar da população.
Os estudantes, muitos deles forçados a participar sob ameaças de represálias, foram transportados como peças de um quebra-cabeça que só fazia sentido na mente dos poderosos. Aqueles jovens, que deveriam estar na sala de aula, foram tirados de suas rotinas para aplaudir promessas vazias. E enquanto eles se dirigiam ao evento, um autocarro desviou no morro do M’binda, transformando a celebração em tragédia.
As vidas perdidas naquele acidente trágico se tornaram o eco cruel das promessas não cumpridas. Estudantes mortos e feridos – futuros interrompidos por uma indiferença que custa vidas. As famílias dessas vítimas se perguntavam se valeu a pena sacrificar seus filhos para um espetáculo que não lhes traria nada além de dor e luto.
E agora, as mortes nas estradas – essas tragédias – justificariam as inaugurações? Os estudantes transportados para aplaudir essas obras retornariam para casa com uma sexta básica ou jantariam à base da ausência de arroz e peixe? Cada vez mais distantes da possibilidade financeira de colocar comida na mesa, as famílias se questionavam se aquele desfile valia o sacrifício de seus jovens.
Enquanto isso, as mães e pais choravam por aqueles que não voltariam. O mero aceno do Presidente parecia irrisório diante da perda irreparável. Os bifes e alimentos chiques que sonhavam em ter à mesa pareciam tão distantes quanto as promessas vazias que se esvaíam no ar quente do meio-dia. A vida não mudara; ao contrário, continuava marcada pela escassez e pela luta diária.
Naquele momento, o verdadeiro espetáculo não estava na visita do Presidente, mas na resistência silenciosa das pessoas que ali estavam. Elas eram mais do que meros espectadores; eram protagonistas de suas próprias histórias, mesmo quando suas vozes eram silenciadas. Cada olhar desiludido e cada gesto de indignação contavam uma narrativa muito mais rica do que qualquer discurso político.
A visita terminaria em aplausos ensaiados e sorrisos forçados, mas a realidade permaneceria inalterada. E assim, enquanto o Presidente partia para mais um compromisso na capital, as pessoas voltariam para suas casas com o peso da indiferença sobre os ombros.
E assim segue a história: entre desfiles e promessas vazias, a vida continua para aqueles que esperam por mudanças reais. No fim das contas, o desfile da indiferença pode ser impressionante à vista dos poderosos, mas para os cidadãos comuns é só mais um dia em busca da dignidade perdida — uma busca que ainda não encontrou eco nos palácios do poder.
Por: 𝐸𝑟𝑛𝑒𝑠𝑡𝑜 𝑇𝑜𝑚á𝑠 – Menzecana Rene Tomás
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